#44 Perspectivas
Retrotopia | Um mergulho de verão - parte 1 | Uma anti resenha | Rock goiano
Na falta de um futuro melhor, olhar para trás
Uma das minhas escritoras preferidas, a Aline Valek, tem um podcast que também está na lista dos que mais gosto. O Bobagens Imperdíveis aborda, como o título bem explica, curiosidades e reflexões que podem até parecer bobas, mas estão sempre falando sobre aspectos importantes da nossa sociedade. Na temporada atual, o podcast, que é uma incrível obra de pesquisa e narração da Aline, aborda temáticas sobre o futuro e suas possibilidades.
O tema, que parece estar em voga, é também assunto principal do doutorado de uma grande amiga e parceira de pesquisa e, devido aos nossos frequentes encontros acadêmicos, teve um papel importante nas minhas discussões durante o ano passado. Isabela, minha amiga antropóloga refugiada na comunicação, está investigando quais são os imaginários de futuro presentes no TikTok.
A motivação que, a meu ver, une ambas discussões é a nossa falta de capacidade de imaginar um futuro melhor coletivamente. No horizonte temporal, o futuro sempre foi percebido como uma época de grandes avanços e uma vida melhor ― mais tecnológica, moderna e longínqua. Desde o Iluminismo, a crença na ciência e na sequencialidade nos fez crer que o amanhã sempre seria melhor. O passado é ruim, tradicional, ultrapassado. O futuro é onde nossa evolução acontecerá. E, se a evolução ainda não aconteceu é simplesmente porque o futuro está um pouco mais adiante. Confia.
Tudo isso parecia (ou pode até parecer) promissor durante épocas nas quais as inovações tecnológicas prometiam um mundo mais eficiente, onde robôs iriam fazer o trabalho doméstico e você teria mais tempo para o lazer. Mas hoje, ao encarar a dura realidade da precarização da vida justificada pelo progresso de tecnologias que a gente nem precisa, fica difícil comprar essa ideia. Nossa vida inteira, do nosso corpo a nossas relações, se tornou moeda de troca no mercado dos dados e, mais do que nunca, como Mark Fisher disse, “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.
E nessa falta de futuro, o que podemos fazer? Muitos querem voltar ao passado. Em tempos de incertezas políticas e econômicas, a nostalgia faz a gente olhar para os anos antecedentes com uma lente de turista, onde tudo é mais bonito e melhor ali. Como o passado não é fixo, agimos sob ele de forma otimista, em uma retrotopia, criando um passado que nunca existiu, como se retornar a ele fosse a solução de nossos problemas atuais. Um movimento perigoso, para dizer o mínimo, já que um exemplo desse processo é o retorno de ideais nacionalistas e fascistas.
A nostalgia dos anos 2000 que invadiu a indústria da moda e do entretenimento, por exemplo, é sintoma de uma sociedade que não consegue construir imaginário sobre um futuro onde as questões que enfrentamos sejam resolvidas. No lugar de filmes futuristas, agora criamos remakes. E não é para menos: a cada conflito armado, invasão ou novo anúncio de IA, a minha vontade também é de voltar para 1994 quando nem nascida eu era. Mas, já que a tecnologia ainda não nos dá essa possibilidade, como podemos imaginar mundos melhores?
A resposta não está dada, mas acredito que debatermos sobre isso seja um bom início. É claro, podemos aprender com o passado, mas sem a ilusão de que antes era melhor ― até porque, em termos de direitos sociais, passado algum supera as conquistas atuais. Tanto em um nível individual quanto coletivo, é importante que a gente se provoque pensando quem queremos ser, sem atos grandiosos ou presunções egoicas.
O futuro ainda é incerto, mas uma coisa é certa: ele vai existir. Então, pelo menos, que seja um futuro que tenha, minimamente, as cores que a gente pode escolher agora para pintar.
Um mergulho de verão - parte 1
Dei uma última olhada no espelho da sala antes de sair do apartamento para me garantir de que estava satisfeita com o resultado. Não que fizesse muita diferença porque agora o uber já estava há 2 minutos de distância e eu precisava chegar à portaria o quanto antes. Motoristas de uber não são pacientes e os cariocas são menos ainda. Sorri para o reflexo e avisei Mariana pelo celular que estava descendo.
Ela me recebeu no banco de trás do carro com uma animação típica de quem está prestes a adentrar numa noite de sexta-feira cheia de possibilidades.
“Noite das garotas!”, ela disse com seu sotaque carioca carregado.
“Garotas e seu gringo de estimação, né”.
“Sim, meu prince charming”.
“Príncipe encantado no século vinte e um, amiga?”
“Sim! Ele paga tudo para mim — e para você. Ou seja, ele é o cara perfeito”.
Respondi com uma risada. A Mari era uma amiga da época da faculdade que perdurou apesar da distância. Ela morava no Rio de Janeiro, onde nos conhecemos, e eu agora morava em Salvador. Para manter a chama da nossa amizade viva, todo verão nos esforçávamos para passarmos alguns dias juntas e este ano eu optei por ficar duas semanas na minha antiga cidade.
O Rio sempre será meu amor de amor de adolescência. Desde a primeira vez que o conheci, me apaixonei. A capital carioca era tudo o que minha cidade no interior de Minas Gerais não era. Efervescente, grande, repleta de possibilidades e, o melhor, banhada pelo mar. Passei todo meu ensino médio planejando e movendo as peças do quebra-cabeça da vida para que eu fizesse faculdade aqui. Felizmente, esse foi um sonho que se transformou em realidade.
Chegamos no samba no melhor horário, durante o segundo set da roda. Mal entramos pela porta e Jake, o gringo da vez da Mari, veio cumprimentar minha amiga com a paixão que só um amor de verão permite.
“Boa noite, Isabela!”, ele disse em um português arranhado.
Nos abraçamos e logo trocamos o idioma para o inglês. Jake explicou que já estava lá há uma hora, o que justificava sua euforia movida pela caipirinha, e que tinha uns amigos para me apresentar. Meu sorriso murchou um pouco. Nunca gostei de ficar com gringos. Quando me mudei para o Rio, como qualquer mulher negra desavisada, eu achava o máximo me aventurar com eles. Mas, logo percebi a dinâmica problemática de ser vista como objeto sexual exótico e passei a evitar ao máximo.
No caminho para encontrar o grupo de Jake, me lembrei de que estava de férias e não tinha nada de errado em me divertir com quem quer que fosse por uma noite. Abri meu melhor sorriso. E, para minha surpresa, o grupo dele não era formado só por turistas.
“Meninas, esse é o Carlos, meu professor de forró!”, ele disse enquanto apresentava o último amigo e único brasileiro do grupo.
“Forró?”, perguntei.
“Professor não oficial, quero deixar claro! Minha especialidade é samba, mas isso os quadris australianos do Jake não conseguem entender de jeito nenhum…”, respondeu Carlos.
Nossos olhos se cruzaram e instantaneamente senti uma pontada de animação no estômago. Carlos era o típico carioca. Cheio de ginga e de marra, com a pele beijada pelo sol e, como era sexta-feira, estava vestido todo de branco. Mesmo que ele não fosse da umbanda, já sabia que era simpatizante.
Eu precisava de álcool para decidir meus próximos movimentos, então chamei Mari para pegarmos uma caipirinha. Quando voltamos, pude conhecer um pouco melhor o grupo e, meu maior interesse, Carlos. Ele realmente era professor, mas de ciências para crianças do ensino fundamental da rede estadual.
“É só que, como minha mãe me ensinou a dançar bem, eu gosto de ajudar os gringos a tentarem aprender nossa malemolência”, ele disse enquanto tomava um gole da cerveja. “E você, o que você faz?”
“Para ajudar os gringos? Apresento eles à Mari”.
Ele riu. Porra. Nada me deixava mais animada com alguém do que ser considerada engraçada.
“Pô, valeu por essa risada”, ele disse me olhando. “Hoje eu vim um pouco arrastado para cá, estava precisando lembrar de que a vida ainda pode ser boa”.
“Oxi. Aconteceu alguma coisa?”
“Bom… sem querer ser essa pessoa que se abre nos primeiros dez minutos de conversa, mas eu acabei de terminar um relacionamento. Não foi um namoro sério e nem durou tanto tempo, mas foi arrebatador. Ainda estou processando a ida dela”.
Bom, então seremos amigos, pensei. Por curiosidade, quis entender melhor a história e Carlos me explicou que a “ex” tinha se mudado para o sul do país e não fazia sentido tentar algo à distância para eles. Continuamos conversando sobre relacionamentos e términos sem quase perceber que o segundo set da banda estava terminando. Como é de praxe nas rodas de samba, no intervalo é a vez de DJ tocar. Naquela noite, a primeira música foi “Xote da Alegria”.
“Carlos, você tem que dançar com a Isabela para mostrar para ela que você é o melhor dançarino do Brasil”, Jake disse.
Carlos riu, mas me estendeu a mão.
“Bom, eu sou mineira erradicada na Bahia, né, seria um insulto às minhas culturas não aceitar”, respondi pegando a mão dele.
Apesar de ter decidido mentalmente que aquela era uma possível amizade, a sensação de ter o corpo dele colado no meu me deixou acesa. O DJ continuou com mais um forró e enquanto dançamos com o rosto lado a lado, fui dominada pela sensação prazerosa de sentir o toque leve dele na minha pele.
“Preciso de uma cerveja”, disse quando saímos da pista.
“É uma boa pedida”, ele respondeu.
Enquanto eu saia, a mão dele fisgou a minha. Por um segundo, pensei em desvencilhar e seguir meu caminho, afinal de contas ele havia deixado claro que ainda estava superando alguém. Mas, depois de tanta caipirinha e de alguns minutos dançando juntinhos, interpretei o gesto como um convite. Abracei a mão dele de volta e, quase como em um passe de forró, voltei para seus braços. Coloquei minha mão livre em seu rosto e o beijei devagar. Ele correspondeu com um desejo lento, que pedia passagem e invadia cuidadosamente. Senti suas mãos na minha cintura, apertando meu corpo para perto de si. Quase ouvi o barulho dos fogos de artifício com aquele encontro e me deixei levar por alguns minutos.
Talvez por perceber o perigo desse sentimento, terminei o beijo, sorri e disse que ia buscar minha cerveja. Meu coração estava a mil. Fazia muito tempo, talvez anos, que não sentia tanto em um primeiro beijo. Fui ao banheiro me recompor e na saída comprei uma garrafa de cerveja. Enquanto voltava, antes mesmo de chegar no lugar onde estávamos, encontrei os olhos de Carlos me encarando e ele sorriu. Puta que pariu.
***********************************************************************************************************
Terminamos a noite no apartamento dele. Enquanto lá fora o dia chegava aos poucos, eu tentava devorar tudo o que podia do Carlos. Nem passou pela minha cabeça dormir, meu corpo estava alerta, atento. Queria dominar o corpo dele, conhecer sua vida e explorar o prazer de estarmos juntos, tudo ao mesmo tempo. Por fora, tentei disfarçar todo o desejo canalizando-o apenas no sexual.
“Você é uma das mulheres com maior apetite sexual que eu já conheci”, ele disse rindo, enquanto se sentava na cama.
“Isso é algo bom?”
“Claro. Eu só não sei se consigo te acompanhar… na verdade, tudo isso me pegou de surpresa. Quando você chegou no samba, nossa, eu te achei tão linda e tão fora do meu alcance. Nunca achei que você fosse me dar um beijo”.
“Foi o forró”.
“É sempre ele”, ele sorriu e me puxou para mais um beijo quente.
***********************************************************************************************************
Voltei para o apartamento onde estava me hospedando andando em nuvens, apesar de estar sentada em um carro. Minha mente parecia uma fita estragada que tocava repetidamente todos os momentos daquela noite. Meu corpo estava cansado, mas ainda reverberava cada toque que havia experimentado. Na orla da praia, corredores e ciclistas começavam o sábado de sol. O mar prometia um dia de praia perfeito. Fechei os olhos e senti o gosto de sal na boca. Precisava dormir um pouco, mas não queria desperdiçar aquele dia na cama.
“Voltando para a casa agora… meu Deus!! Tenho MUITO para te contar. Nossa barraca às duas?”
Mandei a mensagem para Mari e entrei no elevador.
Leitura da quinzena, por Luiza
Desculpa o sumiço! Não tenho lido, nem escrito, só assisto reels
Queridos leitores, sinto falta de vocês. Vocês pensam em mim? Na minha cabeça vocês são uma leve fonte de culpa, já que tem meses que minhas leituras estagnaram e por isso me falta livro para resenhar. Tenho lido muito, mas todo meu tempo de leitura tem sido tomado por artigos e livros acadêmicos. E no meu tempo livre a única coisa que eu faço é scrollar. Outro dia eu vi um reels que dizia: “como faz para parar de scrollar cara? Não consigo parar de scrollar”. O querido dizia que conseguiu se livrar do seu vício de vídeo game, mas o instagram está impossível. Nem o controle de tempo do aplicativo ajuda, porque ele só clica ‘ignorar’ - esse detalhe me pegou muito porque tem um ano que eu botei esse aviso de tempo e eu só imediatamente clico ignorar, não obedeci esse alarme um único dia desde que o coloquei. Uma das minhas resoluções deste ano é excluir o instagram, mas por enquanto sem sucesso. Por isso, para a resenha dessa semana, seguindo a ideia de melhores do ano que a Tay escreveu na última edição, resolvi trazer os livros que eu não consegui terminar em 2025.
Nunca fui primeira dama de Wendy Guerra
Essa foi uma leitura sugerida de um curso de escrita criativa que fiz há uns anos. O livro conta a história de uma filha em busca da mãe no contexto histórico de pós-revolução cubana. Até onde li, a trama é centrada na dinâmica entre uma filha negligenciada e uma mãe (ex)revolucionária. Comecei muito animada porque foi minha primeira vez na literatura cubana, mas o livro não fluiu de jeito nenhum. Gostei do contexto histórico que serve de plano de fundo para narrativa, já que Wendy Guerra oferece perspectivas interessantes sobre a revolução, o pós e a vida privada dos guerrilheiros. Mas, achei a escrita confusa, fiquei sempre com a sensação que tinha perdido alguma informação crucial. Insisti por três meses e finalmente abandonei. Ainda tenho esperança de terminá-lo e quem sabe fazer uma resenha de reparação.
O perigo de estar lúcida de Rosa Montero
Escolhi este livro pela capa. Um pouco pelo título também. Rosa Montero é jornalista e escritora espanhola e eu amo livros escritos por jornalistas. O perigo de estar lúcida mistura crônica, relato pessoal, e eu imagino que uma pitada de ficção. Fala sobre psicologia, transtornos mentais, loucura e imposição social da ‘normalidade’. O livro tinha tudo que eu gosto mas eu me pegava seriamente entediada. Muitas vezes, sentia que estava lendo anotações sem conclusão, e também depois de três meses desisti.
As meninas de Lygia Fagundes Telles
Este eu abandonei nas primeiras 30 páginas. Já saiu daqui algum tempo atrás minha resenha sobre Ciranda de Pedra, foi a primeira vez que li Lygia Fagundes Telles e foi arrebatador, entrou para lista dos meus livros favoritos. Li ótimas resenhas sobre As Meninas, que se passa na ditadura militar, mas nas poucas páginas que li, já teve dois diálogos racistas. Nem preciso explicar mais, né? Ainda quero pretendo dar mais uma chance mas desanimei.
Você tem um minuto para ouvir a palavra do rock psicodélico brasileiro? por Luiza
O álbum Manual ou Guia Livre para a Dissolução dos Sonhos da banda Boogarins completou uma década no final do ano passado. Para quem não conhece, Boogarins é uma banda goiana de rock psicodélico que se mantém perseverante na cena da música independente. Manual é o segundo álbum de estúdio do grupo, que ano passado ganhou uma versão deluxe com versões demo inéditas e faixas ao vivo das canções Cuerdo e Falsa Folha de Rosto. Tem gente que diz que eles são o Tame Impala do Brasil, mas é o Tame Impala que é o Boogarins da Austrália.
Manual é como uma epifania depois de tomar um doce em algum lugar na natureza perto do barulho de água. É álbum tranquilo, com músicas que te colocam em um transe reflexivo com letras que parecem mais um livro de poesia co escrito por Clarice Lispector e Tim Maia. Sou fã da bandinha desde 2014, quando ouvi pela primeira vez Lucifernandes, do EP As Plantas que Curam. Mas foi com Manual que Boogarins se tornou minha banda favorita e também a mais ouvida até hoje. Faço menções especiais para as faixas Tempo, Cuerdo e Auchma.





