#45 Perspectivas
Acho, PR es otra cosa | Um mergulho de verão - parte 2 | Entre exagero e sutileza | Um romance brasileiríssimo | Bruno Mars latino?
América Latina está bien cabrón
É setembro de 2024 e eu estou no Rock in Rio. A Karol G sobe no palco principal e canta suas principais músicas para um público que, apesar de animado, não a acompanha naquela cantoria clássica de plateias brasileiras. Eu, que sou uma fã recente da colombiana, fico um pouquinho triste e pensando que o preconceito linguístico que nos ensinou que espanhol era feio me parecia a única explicação pro público não se encantar pela Karol como muitos outros países latinos haviam feito.
Essa foi uma das primeiras lembranças que me vieram à mente quando estava no show do Bad Bunny, no último sábado. Benito conseguiu lotar o Allianz Parque dois dias seguidos e fazer brasileiros de diversos lugares do país se reunirem para cantar a plenos pulmões seu espanhol carregado de gírias e sotaque porto-riquenho como se consumíssemos essa língua todos os dias nas rádios, tv e cinema.
Senti a emoção invadir todo meu corpo ao ouvir suas músicas mais famosas repercutirem um coro que era formado também por imigrantes de outros países latinos erradicados aqui. É claro, o espanhol deles dava um baile no nosso, mas ali no estádio, nosso coração batia a mesma batida de reggaeton misturada com salsa. E, nesta grande festa latina, vi milhares de pessoas dançarem com todo o corpo por mais de duas horas em um show épico.
Bad Bunny trouxe para o Brasil um show com pequenos detalhes em português, mostrando o cuidado da produção para que a gente se sentisse em casa mesmo em um outro idioma. Veio vestido de amarelo e verde para o segundo ato do seu espetáculo e não cansava de sorrir e dizer o quanto estava feliz. Assim como suas músicas, sua alegria contagiou o público que, mesmo de onde eu estava, a muitos metros do palco na arquibancada, pulava e cantava como se estivesse em frente ao cantor. Para além do dito, as referências de músicas brasileiras durante o show deixavam claro o que talvez agora a gente saiba: as fronteiras entre os países da América Latina são invisíveis para nossa cultura compartilhada.
O timing da ascensão da carreira do Benito - que já tem dez anos - não é à toa. Ele lançou um álbum que retorna às raízes em um momento em que o movimento cultural de exaltação da latinidade está em voga. Seu show demonstra que, neste palco latino, não há espaço para a sobriedade contida de estadunidenses e europeus. Aqui, se canta, se dança, se coloca o coração em tudo. E nos demonstrando o seu, Benito conquistou o nosso.
Um mergulho de verão - parte 2
(Leia a parte 1 aqui)
Antes mesmo do meu despertador me acordar um pouco antes do horário de praia marcado com Mari, meu celular vibrou.
“Sei que você disse que era seus últimos dias aqui e que você queria ficar com sua amiga o máximo de tempo possível, mas quais as chances de eu te ver hoje?”
Li a mensagem de Carlos com o coração batendo forte. Dei um gritinho. Me sentia uma adolescente de novo, descobrindo a paixão, o tesão e aquele desejo inebriante de querer estar junto.
Apesar de geralmente gostar do jogo da conquista, a disponibilidade dele foi bem-vinda. Eu já me sentia em abstinência do toque dele e como só tinha mais 5 dias no Rio, queria aproveitar ao máximo a companhia dele também. Convidei ele para a praia com Mari e curtimos o dia até que ele virasse noite em um samba na Rua do Senado. Estar ao lado dele era fácil, como se fôssemos amigos de longa data que não precisam pisar em ovos para se expressar.
Quando acordei e vi seus olhos, na manhã seguinte, senti uma pontada no estômago. Estava embriagada com uma avassaladora paixão. Talvez fosse o calor carioca ou até mesmo a fugacidade do nosso amor de verão, mas parte de mim acreditava que aquele era o cara. Tentava disfarçar a imensidade do que experimentava, mas ao perceber que era recíproco, inconscientemente relaxava na presença dele e acabava sendo muito mais carinhosa do que geralmente era em qualquer relação. Durante as horas preguiçosas na cama que acompanharam nosso início de domingo, me demorei fazendo cafuné e carinho em todo o corpo dele sem pensar em mais nada além de como eu queria que aquele momento durasse para sempre.
Estávamos em um boteco em Botafogo com a Mari, o gringo e toda sua trupe. Carlos estava sentado do meu lado e, a cada pequeno carinho que ele fazia em meu joelho, eu precisava respirar fundo para não querer começar a transar ali mesmo, no banheiro minúsculo que ficava no fundo do bar. A noite avançava quando Jake sugeriu que fôssemos para um samba na Lapa. Dividimos o grupo e entramos no uber rumo ao centro da cidade. Do meu lado, enquanto Mari e Jake falavam de qualquer coisa em inglês, Carlos sussurrou no meu ouvido:
“Eu quero arrancar esse seu vestido fora”.
Dei uma gargalhada. Era uma frase brega, mas vindo dele, me deixou com tesão. Respondi com um beijo na nuca dele e apertei sua coxa. Eu não sei se estava mais enebriada pelo meu desejo por ele ou pelo desejo dele por mim, mas pisava em nuvens. No samba, dançamos a noite inteira enquanto nos revezávamos em conversas entre as músicas da banda.
“Eu queria te fazer um convite”, ele disse quando a madrugada já era nosso cenário lá fora.
“Se for para ir para sua casa hoje, a resposta é: eu aceito”.
“Graças a Deus”, riu. “Mas, na verdade, eu queria te convidar para uma viagem. Eu sei… é um pouco maluco viajar com um cara que você acabou de conhecer, mas eu sinto que o que a gente tem é forte, não sei, às vezes parece que a gente já se conhece há anos”.
Mordi a boca. Era verdade e ouvir isso dele me fazia feliz. Era também verdade que se ele me chamasse para ir para a lua, eu vestiria os trajes astronauticos sorrindo.
“Bom”, ele continuou pegando minha mão, “e eu sempre acampo no verão em Ilha Grande, então eu pensei que seria uma forma de eu te mostrar a ilha e ainda você ganhar a companhia de um guia que vai te encher de curiosidades sobre a vida animal e a botânica da região”.
“Com certeza é um baita convite. Eu raramente contrato guias quando viajo… mas acho que esse seria um guia gratuito, certo?”
“O pagamento pode ser realizado com carinho e beijos”.
Ele sorriu enquanto me olhava, esperando pela resposta.
“Então, vamos conhecer Ilha Grande”, respondi, devolvendo o sorriso.
As séries que alugaram um triplex na minha mente nos últimos meses
Sempre digo que, para mim, assistir séries em dia de semana é como meu cigarro depois do trabalho. Uma forma de descomprimir, aliviar a tensão, mas sem os malefícios da nicotina & associados. Sendo assim, estou sempre em busca de uma nova produção para assistir e tenho um fraco por histórias leves, repletas de cotidiano e que eu não preciso pensar muito.
Foi numa dessas que me deparei com The Summer I Turned Pretty. Eu já tinha visto uma querida no tiktok comentar sobre a série e, então, decidir dar uma chance. Inicialmente, eu assistia um pouco distraída, revezando minha atenção entre a tv e fazer minhas unhas ou preparar algo pra comer. Nesse descompromisso, cheguei na terceira temporada e quando assustei, estava totalmente envolvida pela trama.
A série, que é baseada no livro homônimo, conta a história de Belly, uma adolescente que cresce passando seus verões numa casa de praia junto à mãe, irmão e uma família amiga, composta pela mãe e dois filhos. Assim como a história de 95% das fanfics que li quando eu era a adolescente, ela se apaixona por um dos meninos e, se vendo rejeitada por ele, acaba se apaixonando também pelo irmão dele. Quem nunca, não é mesmo? Eu, nunca, mas nas fics que lia, esse tipo de triângulo e/ou romance totalmente descolado da realidade que geralmente envolve alguém que em tese é da sua família, mas legalmente não é, acontece bastante. Lembro de uma fic de fãs de McFly bem famosa ali nos anos 2010 que se chamava Uncle Harry. Não vou dar detalhes do enredo, o nome fala por si só.
Bom, de início eu assisti à série exatamente da forma como gosto: sem pensar muito sobre nada. Achava tudo meio bobo — afinal de contas, a história foi feita para um público 16 anos mais novo que eu — mas ao mesmo tempo divertido. Entretenimento puro. A virada que aconteceu na terceira temporada é justificada pelo salto temporal que a série dá, com as personagens já com seus vinte e poucos anos. Ah, agora sim, falta de dinheiro, sexo e alcoolismo funcional!
Apesar da dificuldade de ver verossimilhança nos plots oferecidos, me envolvi profundamente com a trama. Como é típico de histórias pouco complexas (sem julgamento algum aqui hein!), o drama é o centro de TSITP. O início da terceira temporada ilustra bem isso. No primeiro episódio, três anos se passaram e, por isso, não vemos Belly na melhor fase do seu relacionamento com o segundo irmão, Jeremiah. Felicidade não dá ibope. Ela reencontrando depois de anos o irmão principal, seu eterno primeiro amor, Conrad, isso sim é o caos que o povo quer ver.
E eu bebi dessa fonte de drama como uma cachorrinha sedenta. Fiquei totalmente obcecada. Muitos dos meus papos durante dezembro começavam com “cara, então, eu tô vendo essa série teen chamada the summer I turned pretty…”. Eu até tentei elaborar o porquê do meu vício, supondo que a história me conectou com os anos de jovem adulta que não voltam mais ou qualquer coisa do tipo mas estou temporariamente sem terapia então não cheguei a nenhuma conclusão.
Eu fiquei tão viciada que, mesmo depois de terminar a série, eu continuava pensando nela e até comecei a rever a primeira temporada em janeiro. Mas, como a única forma de superar o fim de uma série que toma conta dos seus pensamentos é encontrando outra para ocupar este lugar, esse mês eu finalmente encontrei uma nova obsessão: Los Años Nuevos.
Já de saída, você vai perceber que eu fui de Hannah Montana para Rosalía porque, além de espanhola, a série entrega conceito. Para início de conversa, Los Años Nuevos é da Mubi. Então, deixe de lado todas suas histórias rasas e deliciosas e embarque comigo na arte de fazer episódios inteiros em um só cenário enquanto exploramos a complexidade do ser humano.
A princípio, o enredo principal é bem parecido com o filme (que também virou série) Um Dia, no qual as personagens são amigas/amantes e a história conta um dia do ano da vida delas durante 10 anos. Mas, como eu disse, Los Años Nuevos entrega muito mais do que típicos enredos hollywoodianos. A história, que se passa em 10 viradas de anos, conta sobre Ana e Óscar, um casal que se conhece aos 30 anos e vive idas e vindas de um amor. O trunfo da série, para mim, está na atuação impecável dos atores principais. Logo no primeiro episódio, tem uma cena de sexo que eu genuinamente gostei de assistir, o que é raro já que geralmente esse tipo de cena me provoca vergonha alheia e um certo asco. Longe de mim ter ideais puritanos, é só que, em geral, cenas de sexo no audiovisual beiram o irreal quase tanto quanto produções pornográficas. Mas, em Los Años Nuevos, vemos um processo tão sutil de apaixonamento, envolvimento e relações sexuais que o simples significa verossímil.
Além disso, a série joga bem com a complexidade dos papéis de gênero e demonstra as fraquezas das personagens sem ter medo de que isso faça delas menos adoráveis. O elenco e o roteiro são tão bons que consegui assistir a um episódio de 40 minutos sobre um jantar familiar de fim de ano sem me entediar em nenhum momento.
É claro, existe o drama. São idas e vindas de um romance que precisam preencher dez anos de história, mas é um drama que provoca uma tristeza honesta por saber que aquilo não é só ficção, todas nós já sentimos em algum momento da vida.
Acompanhar Los Años Nuevos me trouxe paz. Quando estava obcecada por TSITP, fiquei fixada na ideia de que talvez eu fosse tão viciada no caos dramático quanto a personagem principal que conseguia se autossabotar toda vez que a vida dela estava boa. Mas, ao ver a série espanhola, percebi que, apesar da minha grande afeição pela tragédia romântica que envolve relações conflituosas, a maturidade tem me ensinado que a sutileza traz muito mais prazer do que o exagero. Ainda assim, nesse coração que é apaixonado por todos os tipos de história, guardo espaço para ambos.
Leitura da quinzena, por Luiza
Um achado da literatura br contemporânea
Já comentei por aqui como meu ritmo de leitura desacelerou demais, e ler Mata Doce foi muito refrescante para minha rotina. O romance, escrito pela pesquisadora baiana Luciany Aparecida, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti em 2024. O livro conta a história de Maria Tereza, filha de duas mães, no vilarejo de Mata Doce, na Bahia rural. Logo nos primeiros capítulos, um acontecimento trágico na vida de Maria Tereza e seus entes queridos faz a história deslanchar, e aos poucos vamos descobrindo sobre os mistérios de Mata Doce. No formato de prosa lírica, o romance fala sobre amor, sofrimento, ancestralidade, luto e resistência.
Lucianny brinca com a ordem dos eventos e vai nos apresentando os fatos sem muito compromisso com a linearidade do tempo. Desorganizando a cronologia dos fatos, a história de Maria Tereza é contada quase como uma relação de causa e consequência invertida. O livro conta com personagens fortes e memoráveis, e desafia estereótipos cisheteronormativos das regiões rurais. Para além da profundidade subjetiva dos personagens, a autora também apresenta no plano de fundo a dinâmica de opressão vivida entre os moradores de Mata Doce e os coronéis donos de terra da região. O contexto sociohistórico funciona como mais uma camada de nuance na história de Maria Tereza. O fato de Lucianny ser professora e pesquisadora na área de migração, memória e identidade enriquece a narrativa, que vai pincelando através dos personagens várias questões da sociedade brasileira, além de trazer protagonismo para o Brasil rural e quilombola.
O último romântico está de volta
A edição desta quinzena vem com um lançamento tão fresquinho que quase queima a mão: o novo álbum do Bruninho romântico!
The Romantic é o 4º álbum de estúdio de Bruno Mars e já pelo nome entendemos que ele retomou o foco no amor do início de sua carreira lá em 2010, mas agora com todo o swag que ele apresentou em 24K Magic e no projeto do Silk Sonic.
O que mais me surpreendeu neste álbum são as músicas que misturam ritmos latinos como Risk it all (minha preferida!) e Cha cha cha. Ok, talvez no contexto atual, como falei no texto sobre o Bad Bunny, isso não deveria ser uma surpresa. Mas achei um refresco musical na carreira do Bruno que funcionou muito bem.
São 31 minutos de romance para você entrar no clima do final de semana pronta para amar.







