#46 Perspectivas
A chegada do adeus | Um mergulho de verão - parte 3 | 2 livros, 1 artigo e 1 filme
Ciranda do adeus
Pode ser que ele apareça devagar. Um pensamento aparentemente banal surge te dizendo que há algo perdido naquela relação. Você balança a cabeça, como se o gesto fosse o suficiente para tirar aquele pensamento da mente. Depois, mais sinais surgem. Aqui, não posso dizer precisamente quanto tempo leva para que você reconheça que o fim já começou. Mas seu corpo sente. Enquanto sua mente se agarra ao apego de fazer parte daquela relação, de ter aquela pessoa na sua vida, seu corpo já não relaxa tanto na presença dela. O toque dela já não desperta os mesmos sentimentos agradáveis e um sentimento de rejeição desponta gradualmente nessas ocasiões. A outra pessoa, também ainda em negação, inconscientemente tenta nadar contra a corrente desse rio que, não se engane, foi forjado a quatro mãos. As respostas do outro podem variar entre servidão exagerada ou afastamento mútuo. Tudo vale na tentativa de amortecer uma queda inevitável. Nessa ciranda do adeus, a última dança pode ser longa demais. O apego ao que foram e ao que nunca serão pode manter os corpos já meio zumbis, cansados do esforço, se movendo num ritmo descompassado que causa dor em ambos. O ato final é um ato de coragem. Ter compaixão dessa relação que já sofreu demais deixando-a ir é a atitude mais bonita que se pode ter. Não é fase final do luto; talvez seja o primeiro momento em que se reconhece sua presença. Mas atravessá-lo com consciência é o que nos garante que fizemos a escolha certa.
Um mergulho de verão - parte 3
O primeiro dia na ilha foi totalmente mágico. Pegamos um barco e, depois de uma pequena trilha, chegamos à praia de Lopes Mendes que tinha areia branquíssima e água cor do paraíso. Depois de um dia sob o sol, jantamos na vila do Abrãao e terminamos a noite em um forró repleto de sotaque espanhol dos argentinos que dominam a ilha. Talvez fosse a sensação de estar fora do Brasil mesmo em território nacional ou o balanço do barco que perdura com a gente mesmo horas depois, mas me sentia descolada da realidade. Nem mesmo meus atos pareciam meus. Me deleitava no sentimento quase fantasioso de estar apaixonada pelo amor da minha vida que conhecia há três dias. O cenário, as pessoas, tudo parecia saído de um filme.
Até que a realidade bateu na porta.
Nas primeiras horas da nossa segunda noite em Ilha Grande, Carlos recebeu uma ligação enquanto nos arrumávamos para sair. Era sua ex, aquela sobre quem ele me contou quando nos conhecemos.
“Bela… me desculpa, mas eu preciso atender. Tá tudo bem por você?”
Normalmente, eu não sou uma pessoa ciumenta. Normalmente, eu sou uma pessoa que controla bem as emoções e escolhe o silêncio para não falar demais. Mas, naquele momento, eu não me sentia como normalmente me sentia. Era como se tivessem tirado meu chão mágico debaixo dos meus pés tão rápido que a única reação possível era chutar quem estivesse ao meu redor só para sentir que não estava em queda livre.
“Vai fazer diferença se eu dizer que não?”
Ele me olhou sério.
“Quer saber, Carlos, foda-se”, ri ironicamente. “Faz o que você quiser. Atende aí a ligação da mulher que era perfeita para você. Vou sair.”
Sentei em um bar na rua principal da vila e pedi uma cerveja. Enquanto esperava, acendi um cigarro e deixei a nicotina aliviar um pouco da tensão que minha mente incessante havia instaurado. Tentei dar sentido às minhas reações frente ao aparecimento da ex do Carlos. Parte de mim queria voltar para a pousada, dizer pra ele que eu havia sido impulsiva e que, na verdade, eu só estava insegura. Outra parte de mim desejava que alguém ali flertasse comigo e me lembrasse de que existiam outros corpos que me queriam. Um forró começou a tocar e reconheci “Xote da alegria”. Porra, logo essa?
Acendi o segundo cigarro. Tinha poucas pessoas no bar e provavelmente uma mulher bebendo e fumando sozinha só era algo atraente nos filmes. Me sentia mais uma alcoólatra solitária do que sexy. Ainda assim, busquei com os olhos alguém que me chamasse atenção. A garçonete era a mais interessante. Chamei por ela com a mão e tentei flertar despretensiosamente enquanto pedia outra cerveja para ver a reação dela. Talvez fosse uma forma de cortesia de quem trabalha na noite servindo bebidas, mas senti que fui correspondida. Quis dar um sorriso vitorioso, mas mantive a dose de mistério que um bom flerte pede. Pensava em como convidar ela para algo mais tarde quando meu celular tocou. Era o Carlos.
Atendi o telefone com receio de alguma forma ele saber o que eu estava fazendo. Para minha sorte, tudo o que ouvi foi a voz suave dele me perguntando onde eu estava e dizendo que queria me ver, conversar. Paguei a conta e fui ao encontro dele. Quando nos encontramos, Carlos disse que tinha sido surpreendido pela minha reação, mas que não sabia dizer se, no meu lugar, ele teria agido diferente. Ele também explicou que era amigo da ex dele e que deveria ter deixado isso claro antes. Pedi desculpas pela impulsividade que havia me dominado e, então, eu fui surpreendida pelo beijo dele.
Suspirei aliviada. Minha tentativa de autossabotagem não foi bem-sucedida porque ele foi compreensivo mesmo em um momento em que eu agi da pior forma possível.
O último dia da viagem ocorreu como uma lua de mel deve ser, cheia de paixão, desejo e carinho. Voltamos para o Rio com o coração já angustiado pela nossa despedida, que aconteceria em algumas horas.
Leitura da quinzena, por Luiza
Quem determina quem é o bem e quem é o mal?
“Ninguém coloniza inocentemente, ninguém coloniza impunemente; uma nação colonizadora, uma civilização que justifica a colonização — portanto a força — já é uma civilização doente, uma civilização moralmente atingida que, irresistivelmente, de consequência em consequência, de negação em negação, chama seu Hitler, quero dizer, seu castigo.”
Esse trecho foi escrito pelo pensador martinicano Aimé Césaire, em seu livro Discurso sobre o Colonialismo. O texto foi publicado em 1955, mas segue atualizadíssimo para interpretar o que nós temos assistido no jornal sobre o Irã nas últimas semanas. Césaire foi um dos precursores do pensamento e prática anticolonial, além de ser o cunhador do termo negritude. Em um tempo em que políticas fascistas e de embranquecimento estavam a todo vapor, Césaire foi revolucionário ao se posicionar intelectualmente a partir de sua negritude e fazer um trabalho de resgate e valorização das histórias da África pré-colonização.
Mas o que Césaire tem a ver com o ataque estadunidense e israelense contra o Irã? Em Discurso sobre o Colonialismo, Césaire elabora que a colonização, muitas vezes transvestida de missão civilizatória, opera a partir da desumanização e estigmatização. Enquanto potências imperialistas fingem trazer progresso, sociedades colonizadas têm suas “culturas pisoteadas, instituições solapadas, terras confiscadas, religiões assassinadas… possibilidades extraordinárias suprimidas”. Agora, juntando o 1+1, vemos mais uma vez potências imperialistas do norte global destruindo países inteiros em nome da ‘liberdade’. Liberdade para quem?
A guerra contra o “terrorismo” e a “liberação do ultraconservadorismo religioso” nada mais é do que o discurso colonial de Estados Unidos e Israel para, na verdade, alcançarem domínio e soberania econômica. A história da opressão imperialista nos países árabes vai se repetindo em espaços de tempo cada vez mais curtos. Será que falta muito para a próxima produção cinematográfica de Sniper Americano? Sobre a “libertação” das mulheres iranianas de um regime religioso, eu recomendo o artigo “As mulheres muçulmanas precisam realmente de salvação?” da antropóloga palestino-estadunidense Lila Abu-Lughod. Nesse artigo, ela discute sobre a ‘guerra ao terrorismo’ no Afeganistão e revela o caráter impositivo de ocidentalização e colonização por meio dos discursos de livrar mulheres de suas práticas religiosas e culturais, como o uso do hijab, por exemplo.
E para aprender um pouco sobre a história do Irã contada por uma iraniana, Persépolis é uma leitura obrigatória! (para quem tem preguiça de ler, o livro virou filme, então pode assistir a adaptação). Persépolis é uma autobiografia de Marjane Satrapi que, além de escrever, também ilustrou o livro. Marjane conta sua história desde a infância até a vida adulta, que é atravessada pela revolução em 1979. Vinda de uma família comunista, ela aponta os desafios da transformação conservadora no país. Mas, exilada na Europa, ela se depara com outras formas de opressão em uma sociedade ‘libertária’. O livro é interessante porque oferece uma narrativa crítica ao conservadorismo religioso sem apelar para estereótipos islamofóbicos, além de mostrar com clareza como o conservadorismo não está apenas nos países árabes — a questão é que apenas esse conservadorismo é enquadrado como mau. Ou vocês não viram o vídeo do Trump puxando uma oração na Casa Branca antes de soltar bombas e matar 250 crianças?




