#47 Perspectivas
Afroestima | Um mergulho de verão - parte 4 | Clássicos que valem a pena | Tsunami Season
Patinho pardo
Cresci acreditando que eu era uma menina feia. Tiveram dias em que eu chorava no colo da minha mãe perguntando por que eu era feia e ela tentava me acalmar, dizendo que eu precisava me achar bonita primeiro para depois os outros me acharem bonita. Eu me esforçava, mas não conseguia acreditar nela. Acreditava mais no espelho, que me mostrava minha pele escura, meus peitos pequenos e ossos protuberantes, e meu cabelo volumoso, cacheado, rebelde e ruim. Cresci acreditando que era uma menina feia porque minhas amigas recebiam incansável atenção dos meninos enquanto nenhum deles demonstrava interesse algum por mim. Tentava me adaptar à estética delas principalmente alisando o cabelo. Por ter uma mãe que, na época, era cabelereira, eu só tenho fotos e lembranças do meu cabelo alisado durante a infância e adolescência. Primeiro, eu escovava o cabelo semanalmente e, com treze anos, comecei a usar química para ter um cabelo liso como de todas as meninas que eram consideradas bonitas.
Não foi o suficiente. Na sala de aula, eu via como elas jogavam o cabelo para trás e ele caia sobre o rosto novamente como uma cortina de seda enquanto o meu perdia o movimento de volta sempre que eu tentava imitar o gesto. Com meu interesse e fanatismo crescente pela Demi Lovato durante a adolescência, me tornei obcecada por ser como ela e, para isso, eu precisava ser branca. Assim como outras mulheres pardas, eu ainda não entendia que era negra, mas sempre soube que branca não era. Esse era o lugar da minha irmã e amigas. Além disso, na rua, o assédio sexual que meninas experimentam antes mesmo de se darem conta sobre seus próprios corpos deixava claro que eu era “a morena”. Minha “cor do pecado” me deixava envergonhada de ser quem eu era e passei a usar bloqueador solar sempre que estava exposta ao sol na tentativa de não escurecer mais nenhum tom da minha pele.
Também não foi o suficiente, é claro. Por mais que eu tentasse emular uma estética branca e, em alguns espaços até sentia que chegava perto, eu era apenas um simulacro.
A idade adulta veio e o desejo incontrolável de ser bonita não passava. Eu me comparava o tempo inteiro com todas as mulheres ao meu redor e me sentia inferior a todas elas, especialmente às mais próximas de mim. Mas, com a maior idade, eu percebi que havia um olhar sexual sobre mim que poucas das minhas amigas recebiam. Me aproveitei disso porque tudo o que eu queria era ser percebida por homens e, assim, quem sabe, me sentir bem comigo mesma. O resultado foi um relacionamento abusivo e diversos encontros sexuais nos quais a sensação de prazer mal durava o tempo de um orgasmo rápido.
O ponto de virada só começou quando, de saco cheio de fritar meus fios com escova progressiva, eu decidi parar de alisar o cabelo. Quando contei isso para minha mãe, ela ficou sem entender. Durante o processo de transição capilar, meu pai me oferecia dinheiro para pagar a progressiva para que eu voltasse a ter cabelo liso. Mesmo entendendo que a intenção deles vinha de um cuidado paternal com a percepção dos outros sobre mim, eu estava firme na minha decisão. Meu cabelo nunca esteve tão estranho, com múltiplas texturas, mas eu nunca havia me sentido tão bem comigo mesma. Pela primeira vez na minha vida, eu não estava fingindo ser ninguém. Eu estava sendo eu mesma e uma semente de autoestima e amor próprio brotou em mim.
Quanto mais eu entendia como meu cabelo, que até então era desconhecido para mim, era de verdade, mais eu começava a entender minha identidade racial e o que significava ser uma mulher negra. É claro que, muitas vezes, eu ainda me preocupava com como era percebida pelas outras pessoas. Visitava o banheiro inúmeras vezes durante o expediente no estágio para checar se meu cabelo não estava com frizz demais ou volumoso demais. Mas, quando ia para a universidade e via mulheres lindas com cabelos ainda mais volumosos, me sentia acolhida. Começar a frequentar espaços com outras mulheres negras com orgulho de seus cabelos, cor da pele e cultura transformou a forma como eu me via.
Aos poucos, percebi que eu não era feia, nem quando criança, nem adulta. Eu só não era branca. E, em uma cultura cujo padrão de beleza é a estética branca, meninas negras precisam de referências de beleza negra para enxergarem para além da rejeição que elas vivem na escola.
Hoje, finalmente, vivemos em um momento de exaltação e reconhecimento da cultura negra que nos permite enxergar que nossa pele beijada pelo sol e as curvas de nossos cabelos são mais do que características físicas: são rastros de uma história que deve ser reconhecida com orgulho.
Um mergulho de verão - parte 4
(Leia a história completa: parte 1 | parte 2 | parte 3)
Fechei minha mala e dei uma olhada para Carlos, que estava no sofá da sala do meu apartamento temporário no Rio. Ele me respondeu com um sorriso de canto com um tom de sutil tristeza. Me sentei ao seu lado e o abracei.
“Vou sentir sua falta”.
“Eu também, linda. Você é uma das boas.”
Não consegui segurar as lágrimas. Ele me envolveu com carinho nos braços dele por um tempo que pareceu uma eternidade. Não queria soltá-lo porque sabia que significava que talvez aquela fosse a última vez que a gente estaria naquela posição, de duas pessoas irrevogavelmente apaixonadas e entregues pelo sentimento de encanto que nos envolveu. Mesmo que a gente se encontrasse novamente, soube naquele instante que aquele momento, aquele sentimento, seria o ápice da nossa relação. Olhei para ele sem dizer nada esperando que meus olhos pudessem transmitir tudo o que sentia. Ele me beijou e soube que nossos corações ali estavam em sintonia.
Depois que voltei para Salvador, durante algumas semanas, tentamos manter um contato constante, apesar de termos acordado que não queríamos uma relação à distância. Mesmo que nossas cidades não fossem tão distantes geograficamente, com os caminhos que a vida foi escolhendo para nós, os meses foram passando sem que a fantasia de um reencontro se realizasse.
Ainda assim, nossa relação havia me transformado. Eu tentava não demonstrar a ele porque não queria bagunçar ainda mais meus sentimentos, mas pensava quase todos os dias nele, em nós e em quem fui ao lado dele. Experimentava um entrelaçamento inédito e demorei quase um ano para sentir que minha paixão por ele havia passado. O amor e o carinho ficaram. Conheci uma mulher em um bar no Rio Vermelho em uma sexta-feira despretensiosa que, aos poucos, foi tomando conta dos meus pensamentos no lugar de Carlos. Comprometida em buscar ser a versão da Bela corajosa que se abriu para ele, me coloquei disponível para embarcar em uma nova paixão.
Sempre que conversava com Carlos, cada vez mais esporadicamente, sentia uma onda de magia me invadir. Me transportava novamente para nossos dias no verão carioca, para o toque dele, nossa entrega e desejo. Gostava de ter com ele um amor não realizado, cristalizado nos poucos dias em que estivemos juntos. Isso fazia com que nossa relação fosse perfeita, imaculada. Era irreal e totalmente diferente do relacionamento cotidiano que eu tinha agora, mas quantas de nós podemos dizer que vivemos uma relação ideal, como nos filmes?
Nosso amor foi como um abrir de olhos que me acordou para tudo o que uma relação amorosa poderia ser. E, mesmo que eu e ele de fato nunca o fôssemos, vivenciar essa esperança foi um deleite imune à passagem do tempo.
Leitura da quinzena, por Luiza
Venham e juntem-se a Maya Angelou
Tem autoras que não tem erro, eu sei que vou gostar do livro mesmo sem saber do que se trata. Tem autoras que não importa o seu humor ou fase da vida, sempre é gostoso de ler. Para mim essa autora é Maya Angelou. Ganhei de presente uma assinatura de livros (o que pessoalmente é o presente mais legal que eu poderia ganhar na vida) e minha primeira caixa de assinante chegou com “Venham e Junte-se a Mim”. O livro foi como um reencontro, já que a última vez que li Maya Angelou foi em 2019. Quase sete anos depois, foi como encontrar uma amiga que você não vê há muito tempo, mas nada mudou.
Venham e Juntem-se a Mim é o segundo livro da série autobiográfica da autora.
É uma continuação de “Eu Sei Por Que o Pássaro Canta na Gaiola”, que conta sua história de vida da infância até a adolescência. O primeiro livro termina quando Maya se torna mãe, aos 16 anos. Em Venham e Juntem-se a Mim, acompanhamos Maya a partir de seus 17/18 anos, mãe solteira e mulher independente. Apesar de correlacionados, os livros podem ser lidos separadas sem comprometer a história.
O que eu mais amo nos livros de Maya Angelou é sua capacidade de tornar seu cotidiano em um romance, uma ficção. A maneira como ela apresenta sua história é muito cativante, e os capítulos vão se costurando com aquele gostinho de uma novela que tem desdobramentos inesperados, quebras de expectativa e romances, dos bons e dos péssimos também. Maya Angelou tem uma narração única e muito talento em misturar drama e comédia. É uma história para gargalhar e chorar na mesma proporção.
Já ouviu a palavra das mulheres do rap nacional?
Por Luiza Fernandes
No último final de semana, nossa querida Doechii veio para o Brasil se apresentar no Lollapalooza. E como muitos de vocês devem ter visto, a pedidos da diva, teve um grande encontro dos maiores nomes do rap nacional e da cena do ballroom na festa Batekoo.
Que a Doechii era diferenciada a gente já sabia, mas seu interesse pela cena local só confirma como ela é uma artista completamente fora dos padrões do mainstream, especialmente para uma artista dos Estragos Unidos. Na festa se juntaram com Doechii, Ebony, Tasha e Tracie, Duquesa, Budah, Kyan, MC Tha, Tássia Reis e Nanda Tsunami. Tá bom para você?
A indústria nacional vive um momento incrível com muitas mulheres liderando a cena, lançando trabalhos com muita identidade e qualidade. O rap vem furando a bolha do mainstream e já ganhou várias trends no tiktok e instagram (eu realmente fico preocupada com o desemprego dos rappers masculinos). Surfando na onda da Doechii, venho te recomendar dar play na Nanda Tsunami. A rapper surgiu no meu algoritmo com P.I.T.T.Y, um sample de P.I.M.P com uma letra que está mais para um esculacho e que eu escuto fixamente há uns dois meses seguidos. A Tsunami fala sobre autocuidado, autoestima, sexo e putaria.
Misturando rap, trap e funk, seu álbum de estreia, Tsunami Season, é uma ótima escolha para conhecer a artista. Faço menção honrosa para “Ritmada Meditação das Ondas Sonoras”, que é perfeita para quem gosta de meditar e alongar rebolando ao mesmo tempo.
Seu segundo álbum, “É disso que eu me alimento”, Tsunami mostra ainda mais de si nas letras e traz faixas icônicas como “Oi Linda” e “Pq vc não me liga?”.
“Os cara fica falando que as mina tudo rima igual
Que a gente só fala de buceta, mas, tipo
Por que que vocês não gostam que a gente fala de buceta?
Tipo, mano, cês são estranhos, sei lá” Tsunami, Nanda





