#5 Perspectivas
As (H)Elenas da ficção | Uma história sobre o poder da lembrança | O som afro-brasileiro-europeu de Mayra Andrade
Helenas e Elenas
Manoel Carlos escreveu, ao todo, 9 Helenas. Desde 1981, suas protagonistas de novelas da Globo representavam versões diferentes do feminino, mas com alguns aspectos em comum, como a obstinação, beleza e benevolência das mulheres. Suas personagens sempre ganhavam o coração do galã da novela e do público, enquanto batalhavam contra vilãs e vilões, sempre mantendo a postura correta esperada de uma verdadeira musa. Eram vítimas, mas fortes. Bonitas, mas não soberbas. Sentimentais, mas assertivas. Perfeitas.

Já Elena Ferrante, pseudônimo da autora italiana da tetralogia A amiga genial e outros livros, escreveu mulheres diferentes. O feminino para Elena é complexo, multifacetado e contraditório. Suas protagonistas são vítimas também, mas não se limitam a este papel só. Elas, da mesma forma, são antagonistas em outras narrativas. Sabem dar a outra face, mas sabem levantar a voz. Amam os filhos, mas se permitem afirmar que às vezes desejavam não serem mães. São fortes, mas fraquejam - e muito. Admitem sentir inveja, ódio e repulsa. Se vingam, são passionais, traem os parceiros, negligenciam a si próprias e, depois de tudo, pedem perdão, oferecem amor incondicional, dedicam-se a tudo aquilo que as importa. São viscerais.
Poderíamos, aqui, resumir a diferença entre ambos no fato de que Maneco é um homem, branco etc enquanto Ferrante é, em tese (uma vez que não se sabe sua real identidade), uma mulher e que mesmo o homem mais sensível ao feminino não escreveria uma mulher tão bem quanto alguém que ocupa esse lugar na cidade. Mas, a verdade é que a literatura, de autorias femininas ou masculinas, no Brasil ou na Europa, está repleta de Helenas. E, como a vida imita a arte e vice-versa, o mundo também. São incontáveis as histórias (fictícias e reais) de mulheres fortes, amorosas, de boa índole e cuja beleza é um fator sempre a ser mencionado. É a narrativa da mulher boazinha, sempre disposta a ajudar o outro mesmo que isso a prejudique, que nunca fala alto demais e cuja vida poderia ser contada por meio das diversas vezes em que foi vítima de alguma injustiça e sobressaiu.
Respeito imensamente essas histórias, mas me entedio fácil. Ninguém é tão bom assim e o papel da vítima, em algum momento, cansa. Me interesso muito mais pelas mulheres furadas, que escancaram seus vazios, faltas e inseguranças não por orgulho, mas por entender que aquilo também faz parte delas. O feminino complexo que expressa seus lados antagônicos é muito mais apaixonante. Personagens que usam de sua sensualidade quando querem, que são egoístas e se arrependem depois e que admitem terem pensamentos horripilantes são aquelas que me fazem agarrar as páginas de um livro como se minha vida dependesse daquilo.
Leitura da quinzena, por Luiza Fernandes
Torna-te quem tu és
A memória é o que a gente guardou ou é o que a gente não esqueceu? Esta pergunta não saiu da minha cabeça enquanto eu lia Oração para Desaparecer, da cearense Socorro Acioli. A história conta sobre a vida de Cida, uma mulher que desperta sem memória, sem documentos e sem nenhum contexto de seu passado. A única referência é seu idioma, português. O primeiro parágrafo do livro já te faz prender o fôlego e eu mesma só fui respirar lá pela página 70.
“Como se sabe pra onde ir quando não se sabe de onde veio?”, questiona a protagonista, que ao longo do livro, na tentativa de recuperar a memória, atravessa inúmeras crises de identidade. Suas únicas pistas vêm quando está dormindo e através dos sonhos tem relances de seu passado. Na jornada de autodescobrimento de Cida, vamos alternando entre angústia e conforto. Com a única certeza de ser brasileira, em seu processo de se reinventar, Cida nos revela como é importante saber do nosso passado para poder construir um futuro.
Socorro Acioli entrelaça realismo mágico, cultura regional, teoria de sonhos e filosofia em 208 páginas deliciosamente bem escritas. Tenho uma queda por livros com pesquisa bem feita, que apesar da ficção nos ensina sobre outros universos do mundo real. Com belas metáforas, Acioli brinca com as palavras e detalhes da natureza para construir um romance difícil de esquecer. Já incluí na minha lista “A Cabeça de Santo”, livro que a autora produziu em uma oficina de roteiro “Como se Cuenta un Conto” de Gabriel Garcia Marquez e em breve vai aparecer por aqui também.
Música que atravessa oceanos
Mayra Andrade cabo-verdiana, mas que já viveu em países como Senegal, Angola, França, Portugal e Alemanha e, apesar de nunca ter vivido no Brasil, suas músicas têm forte influência do nosso país.
Com letras em crioulo cabo-verdiano, inglês, francês e português, Mayra apresenta uma sonoridade única. Costumo recomendar o álbum Manga, que engloba as diversas referências da cantora e compositora, e é perfeito para ouvir durante um jantar com os amigos.
Para quem já é fã ou se apaixonar agora, a artista vai tocar aqui no Brasil em maio, com shows em Salvador, São Paulo e Rio.



