#50 Perspectivas
Male gaze em Euphoria | Ilusões da carne | Clássicos que valem a pena + uma listinha | Manhã de domingo | Curadoria musical humana
Essa é a 50ª edição da Perspectivas! Uau!!
Manter a periodicidade da newsletter às vezes é um grande desafio para mim e sei que para a Luiza também porque, como já falei por aqui, somos mulheres com jornada dupla e, em alguns períodos, até tripla. Mas é sempre um prazer enorme escrever, ser lida e receber os ocasionais comentários (online e offline) e curtidas de vocês.
Esta edição inaugura um novo formato da Perspectivas: agora faremos uma edição por mês, sempre na primeira semana (com sorte às quintas), com mais ensaios, análises, resenhas, crônicas e contos.Espero que gostem!
Agradecemos imensamente a quem nos lê <3 que venha a edição 100!
E mais uma vez, o tão disruptivo olhar masculino
Em momentos bem distintos, eu escrevi sobre histórias escritas sobre mulheres por mulheres. Inclusive, em uma das primeiras edições da Perspectivas, eu falei sobre a complexidade feminina que, dificilmente, autores homens conseguem alcançar com sua escrita. É claro, existem exceções conhecidas, como o cineasta Pedro Almodóvar e (a meu ver) Jeferson Tenório em obras como Estela sem deus.
Entretanto, em geral, o que homens conseguem (re)produzir, especialmente em obras audiovisuais, é o olhar masculino. Esse olhar que nos limita a meros objetos, que constrói personagens monolíticas e tediosas, sexualizadas, infantilizadas e com pouca ou nenhuma agência. São personagens que, mesmo quando se propõem a serem “feministas” e quebram tabus, acabam sendo reduzidas a estereótipos. E, se for o caso de a proposta ser o oposto, o resultado é desastroso.
Esse é o caso da personagem Cassie, interpretada pela anti-querida Sydney Sweeney, na série Euphoria. Eu nem vou entrar em todas as polêmicas que a Sydney já angariou para si, mas talvez a manutenção de sua personagem na série já seja um alerta sobre os rumos que a história tomaria. Cassie, se olhada de forma crítica, é o estereótipo da mulher bonita, gostosa e fútil que, agora adulta, é uma trad wife neoliberal de direita que topa tudo por dinheiro, inclusive se vestir como bebê, cachorro sexy e por aí vai.
É uma personagem baseada em mulheres reais. Eu acho. Não convivo muito. Mas, ainda assim, existem muitas formas de se narrar uma personagem “problemática” e mostrar os peitos dela em 90% do tempo de tela talvez não seja a melhor.
A Cassie é o exemplo mais evidente, mas a verdade é que todos os episódios da série viraram um show de partes de corpos femininos (muitas vezes sem o enquadramento da cabeça das mulheres que os possuem) de forma que não agrega à história. O trabalho da personagem principal — Rue, interpretada pela maravilhosa Zendaya — em um clube de strip e a empreitada de Cassie pelo conteúdo adulto me parecem só uma desculpa para objetificar mulheres e colocar atrizes seminuas em câmera.
A justificativa poderia ser liberdade artística ou liberdade sexual feminina, mas vamos ser sinceras: é fetichização. Quando uma obra audiovisual só mostra corpos femininos seminus, sem explorar a subjetividade dessas personagens, fica claro que o objetivo é sexualizar apenas as mulheres e agradar o olhar masculino, que é re(produzido) no cinema e na TV desde a invenção dessas mídias.
Não há nada de novo nem disruptivo em Euphoria. Há uma continuação de nossos corpos, exatamente no lugar onde os homens querem: o lugar de objeto. E, para mim, nenhuma atuação estrondosa de atrizes como a Zendaya ou Alexa Demie me convence de que vale a pena dar audiência para isso.
Religião
Desceu as escadas e saiu pelos portões azuis de cabeça baixa. O momento de ganhar a rua era sempre o pior. Toda vez que atravessava aqueles portões, morria de medo de ser visto ou esbarrar com algum conhecido ali. Para não parecer furtivo, caminhava lentamente.
Sentia nojo de si mesmo. Prometeu para si que aquela seria a última vez. Mas também havia dito isso para a mulher que o esperava em casa quando ela descobriu o que ele fazia nas horas vagas depois do expediente do trabalho. E tinha dito isso para os amigos também no bar no mês passado, quando chegaram à conclusão de que era arriscado demais frequentar a casa. Mas ele voltava, religiosamente. Sou um fraco, pensou. Fraco e agora com menos duzentos reais na carteira. Os segundos de prazer não valiam a pena, era a conclusão a que chegava ao sair pelos portões azuis. A conclusão vinha sempre acompanhada da culpa pelo seu pecado e pelo medo de ser descoberto. Então, por que voltava?
Mas agora foi a última vez, prometeu a si mesmo, mais uma vez.
Estava tão perdido em seus pensamentos que nem notou que já havia andado uns quatro quarteirões e finalmente podia relaxar, não tinha encontrado ninguém conhecido. Olhou para a direita e viu uma placa. “Deus é amor”. Lá dentro, um homem de terno com o microfone gritava que todos que aceitassem o filho de deus seriam perdoados. Era um sinal divino. Entrou, pela segunda vez naquele dia, em uma casa onde trocaria dinheiro pela ilusão de se sentir bem.
Leituras do mês, por Luiza Fernandes
1 livro que me fez ler outros 50
Conheci o Ray Bradbury no cursinho de inglês. A gente leu um conto chamado The Girl with the Summer Dress e alguma coisa naquela escrita ficou guardada em mim, daquele jeito que acontece com as coisas que a gente não sabe ainda que vai precisar. Desde novinha eu sou amiga dos livros, mas depois do ensino médio passei por alguns períodos de desertos literários. A faculdade me bagunçou e o hábito da leitura se perdeu por um tempo. Não que eu tivesse parado de querer ler, é que eu simplesmente não soube trazer o hábito para vida nova, com tanto estímulo que o mundo adulto joga na sua frente. Até que um dia esbarrei com o Bradbury numa livraria e aquela memória do cursinho foi reativada. Peguei o Fahrenheit 451 sem saber do que tratava, mas era exatamente o que eu precisava.
O livro se passa num futuro distópico onde os bombeiros não apagam incêndios: eles os causam. Queimar livros é o trabalho deles, porque numa sociedade que escolheu o conforto e a superficialidade acima de tudo, a leitura é subversiva demais pra existir. Guy Montag é um desses bombeiros até o dia em que começa a questionar o que, afinal, está sendo destruído naquelas páginas.
O livro reativou o meu tesão pela leitura. Mas mais do que isso, ele me fez pensar em algo que eu nunca tinha considerado: os livros também precisam de mim. De alguém que os leia, que os carregue, que faça sentido deles. Num tempo de IA, Reels e leitores que consomem livros por meio de resumos de três minutos, a distopia do Bradbury deixou de ser ficção. Sem leitores, os escritores perdem a sua função e nós perdemos algo que nem sabemos nomear direito. Se você está precisando de uma chacoalhada para reativar o prazer pela leitura, com certeza vai encontrá-la no Bradbury.
Três livros curtinhos para ler em 50 dias
A metade do ano tá chegando e se você, assim como eu, está atrasada na meta de leitura anual, essa lista é para você. Aproveitando que o inverno tá chegando por aí, preparei uma lista com três livros curtinhos para ler em 50 dias e dar uma recuperada na meta de 2026.
A Hora da Estrela de Clarice Lispector
O último romance de Clarice conta a história de Macabéa, uma jovem nordestina que migra para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades. Ela vive em um mundinho à parte, sem família, amigos ou afetos verdadeiros. Suas reflexões ingênuas e honestas pintam um mundo cor-de-rosa, desconectado da realidade que vive. Ela ensina que a beleza está no efêmero. É um dos livros mais acessíveis para quem quer começar a ler Clarice, e ao mesmo tempo, um dos mais bonitos da literatura brasileira.
Carta a Minha Filha de Maya Angelou
Essa é uma coletânea de ensaios pessoais em que Maya Angelou nos convida a uma jornada pela sua própria vida, desde a infância no Arkansas segregado até as lições que foi acumulando sobre compaixão, resiliência e as complexidades do amor. Ela nunca teve uma filha biológica, mas vê todas as mulheres como suas filhas, deixando como maior lição a sororidade. É daqueles livros que você termina e fica uns dias (ou anos) com a voz da Maya na cabeça. Um brinde é que, na edição brasileira, o prefácio é da Conceição Evaristo.
Pequena Coreografia do Adeus de Aline Bei
Já recomendei O Peso do Pássaro Morto por aqui. Pequena Coreografia do Adeus é o segundo livro da Aline Bei. E novamente ela não decepciona. Acompanhamos Júlia, filha de pais separados e que tem uma infância marcada por perdas drásticas. Atravessando a maturidade entre a ausência de amor e pela busca por um espaço de afeto no mundo, ela encontra na arte e na escrita formas de resistência. A prosa é construída em versos, dividida em blocos temporais que acompanham as fases da protagonista, é o tipo de livro que você lê quase sem respirar. A escrita única da Aline Bei me fez novamente devorar o livro em poucos dias.
Um domingo normal, por Luiza Fernandes
O caminho até a casa de minha avó me preenchia com uma nostalgia falsa. Dona Maria havia se mudado para aquele bairro no interior apenas há uns cinco anos, mas eu fantasiava a infância que não tinha vivido ali. Preferia pensar que tinha crescido brincando entre plantações de hortaliça em vez de uma varanda de apartamento no subúrbio. Nunca fui muito boa em lidar com a realidade, gosto de gastar meus pensamentos reconstruindo o passado ou criando cenários imaginários para o futuro. A (des)ilusão sempre foi uma grande amiga.
Aumentei o volume da música no máximo para enganar a ansiedade que me consumia. Lutava contra o ímpeto de descer do ônibus e voltar para casa, deixar a conversa para outro final de semana. De certa maneira, eu gostava da vida dupla, complementava as fantasias que eu brincava de narrar na cabeça.
Entrando no quintal da casa, ouvi o Andrea Bocelli cantando, distante. Era sinal de que minha vó estava de bom humor, era sinal de que as chances estavam a meu favor. Encontrei Dona Maria na cozinha, passando café e agitando o almoço, mesmo ainda não sendo nem dez da manhã. Para minha avó, era só mais um domingo comum, tomando café da manhã com sua neta. Para mim, provavelmente a conversa mais difícil que já havia tido em toda vida. Sentamos na mesa para tomar café da manhã enquanto minha vó falava sobre como andava sem apetite. Relaxo um pouco porque acho graça, ela come bem a beça mas adora falar isso.
Enquanto mordiscava um bolo de milho, já com um nó na garganta e uma leve ânsia de vômito, entrei numa nova espiral existencialista, refletindo como uma só frase iria mudar o curso de uma relação de 25 anos. Eu queria ser uma pessoa prática e só jogar a bomba, falar de vez. Mas meus pensamentos me levaram a revisar a escolha de novo. Para que ter essa conversa com uma senhora de 80 anos? O que vai mudar? Será que essa conversa não é só um capricho meu? E se ela parar de gostar de mim? E se ela tiver um piripaque? O café com bolo voltou ácido num refluxo horrível. Veio mais uma vez o pensamento de seguir frequentando as festas de família com minha amiga sem muitas explicações. Era mais simples, pensava, quase cedendo ao medo.
— Vó, temos que conversar.
Repeti para ela o monólogo ensaiado por horas no espelho na noite anterior. Preparei um monólogo porque não conseguia imaginar qual reação prever, então não conseguia fantasiar um diálogo. Na verdade, repeti uns trechos do monólogo fora de ordem e adicionando a palavra “desculpa” como se fosse vírgula. Engoli mais um refluxo e vomitei, enfim, as palavras.
— Então, vó, ela não é só minha amiga. Ela é minha namorada.
— Desde quando você é assim?
— Acho que desde sempre. Não sei dizer quando começou, só teve um dia que eu aceitei que não tinha mais volta.
Silêncio absoluto. Minha avó bebericava o café e empurrava os farelos de bolo no prato. Olhei para minhas mãos para ver o estrago. Só tinha puxado pele em três dedos, tá bom. Pressionei um dedo mais machucado na toalha de mesa para estancar o sangue. Queria transparecer confiança e tranquilidade, mas por dentro estava desabando. Percebi que mesmo depois de anos de análise, a validação de minha avó ainda era desejada. Por mais que não gostasse de admitir, o sintoma da busca incessável por aprovação não estava curado. E Dona Maria estava no topo da minha lista. Depois de um tempo que pareceu congelar, minha avó levanta e entra na cozinha sem falar nada. Volta com a cuscuzeira saindo fumaça, corta um pedaço para cada uma e senta na mesa novamente.
— Ela é chata para comer?
Senti o meu corpo inteiro pinicar. Acho que tive um leve desmaio. Se Dona Maria estava perguntando isso era porque já estava pensando no que iria cozinhar para ela.
— Ela é boa de prato.
—Então, quando ela vem aqui de novo?
Seguimos para a cozinha para fazer o almoço. Seguimos mais um dia de domingo comum.
Seu gosto musical ainda é seu?
Em maio, o Spotify fez 20 anos. A plataforma, que está na minha vida há 12 anos, me fisgou logo de cara devido ao algoritmo de recomendação que, naquela época, regia apenas playlists específicas como a “Descobertas da semana”. Mas, hoje, assim como em qualquer plataforma, toda a experiência do usuário é permeada por conteúdo recomendado pelo algoritmo.
Isso porque mesmo que você crie uma playlist sua ou ouça um álbum, quando a playlist ou o álbum acabar, a plataforma vai tocar uma música recomendada se baseando na seleção ouvida anteriormente. Atualmente, existe até uma “DJ” programada com IA que te recomenda músicas como se fosse sua DJ pessoal. É claro, você pode desativar ou não usar esses recursos, mas o padrão da plataforma é oferecer recomendações personalizadas, já que esse é o grande trunfo do Spotify frente a outras plataformas de streaming sonoro: seu algoritmo preditivo de alta precisão, assim como o TikTok.
A música acompanha quase todas as atividades que realizo durante o dia. Esse hábito, somado ao cansaço mental que às vezes nos faz procurar as soluções mais fáceis à nossa frente, me fez ouvir só as playlists de recomendação do Spotify por meses. Basicamente, eu só ouvia os dailys mixes e daylist — uma playlist que atualiza a cada 5 horas para “acompanhar” seu dia. Ou seja, eu só ouvia mais do mesmo e, quando muito, uma indicação do “algoritmo” do Spotify, que geralmente era alguma música nova de um artista com muita grana investida, como a Taylor Swift ou o Harry Styles.
Mas, como até açúcar em excesso enjoa, eu comecei a ficar tão entediada com os artistas que eu amo tocando repetidamente que até parei um pouco de ouvir música. Até eu me lembrar de que ainda existe curadoria humana para tudo, inclusive música.
Eu cheguei até o Club Carter Radio por meio de uma indicação no TikTok. A Sagid Carter é uma ex-DJ de rádio holandesa que criou esse programa de rádio online com curadoria musical impecável, repleto de músicas alternativas, eletrônicas, indie, hip-hop, jazz e mais. Toda segunda, ela posta um novo programa, no qual ela não só toca música, mas também, como uma boa DJ de rádio, explica o contexto da música e do artista. Se você gosta de descobrir novas músicas como eu, é perfeito.
É claro que, ao descobrir algo que gosto muito, eu salvo a música no Spotify para ouvir de novo depois. Mas descobrir a Club Carter Radio me lembrou que eu ainda posso moldar meu próprio gosto musical e não apenas terceirizar essa tarefa a um robô. Me lembrei das playlists que criei há 10 anos e voltei a ouvir artistas que nem lembrava mais. Recomendações algorítmicas ainda podem ser válidas, mas a busca ativa por consumir aquilo que foge do radar do algoritmo é uma forma de tomar as rédeas da formação das nossas preferências.












