#51 Perspectivas
O direito ao entretenimento | Viajar para outros tempos | Armorial vs Manguebeat, quem ganha?
Mesmo que seja “só” sobre futebol
Essa é, indiscutivelmente, uma Copa do Mundo muito diferente das anteriores. É a maior Copa da história, com 48 seleções e três países-sede. É a Copa das bets, a Copa das diásporas e a Copa que acontece em meio a inúmeras questões políticas que envolvem muitas das seleções participantes. É a Copa que acontece no ápice da nossa conexão com as formas digitais de mediação e debate, vide o exemplo brasileiro, que tem um canal do Youtube como emissora oficial da competição.
O resultado não poderia ser diferente: incontáveis vídeos e artigos de opinião sobre “não ser só sobre futebol”. São histórias e análises que escancaram que a maior competição esportiva do mundo sempre fala de política, história, dinâmicas sociais etc. São debates importantes e que parecem ganhar tração em um momento em que temos múltiplas plataformas para circular esses conteúdos e pessoas dedicadas a engajarem nesse tipo de assunto. Ainda assim, do lado de cá, nada disso é novidade para quem lê e/ou pesquisa questões sociais, uma vez que tudo é político.
Considero esse contexto essencial para redefinirmos nossa visão coletiva sobre o mundo e o significado da palavra política, mas o que quero provocar aqui é que, mesmo que fosse “só” sobre futebol, a Copa do Mundo ainda seria absolutamente relevante.
Como uma brasileira orgulhosa da nação onde nasci, já estou cansada de ouvir o discurso de que futebol e carnaval são estratégias de manipulação das massas, política de pão e circo, formas de alienação, e logo em ano de eleição para presidente! Dentro de alguns contextos, essas afirmações podem até ser verdade. Mas a gente não merece também ter ALGUM entretenimento?
Para além do sentimento de pertencimento que acompanhar os jogos da seleção brasileira pode significar, assistir a uma partida de futebol que carrega o nome do seu país pode ser fundamentalmente divertido.
Acompanhar a seleção significa juntar os amigos e família, em casa ou na rua, para celebrar um esporte que deixa o coração batendo forte por 90 minutos inteiros. É gritar alto, jogar cerveja pra cima, abraçar desconhecidos e se emocionar com quem tá do seu lado, com quem tá na arquibancada e quem tá em campo. Assistir a um jogo do Brasil é sentir-se unida a milhares de pessoas espalhadas por esse mundo que param a vida toda para ver se a bola vai entrar ou não. E, quando ela encontra o caminho da nossa vitória, sentir que a felicidade só pode ser coletiva.
Caminhar em outro mundo
Observava as cores de um casarão onde agora uma sorveteria funcionava quando ele interrompeu meus ausentes pensamentos.
“Nessa rua aqui era onde as pessoas brancas passavam. Mas, ali atrás, onde essas pessoas jogavam seus restos, era a passagem dos escravizados.”
Tiradentes era repleta dessas contradições. Por trás de toda a beleza e glória, milhares de histórias apagadas beiravam as frestas em busca da luz da memória.
A caminhada pelas ruas de pedras, sob o céu azul límpido, trazia o sentimento de um estranho conhecido. Como se, mesmo estando ali pela primeira vez, desbravando ruas e vielas nunca antes pisadas por meus pés, minha alma já tivesse perambulado por aquele terreno. A arquitetura preservada da cidade fortalece essa viagem no tempo. As construções são, em sua maioria, do século 18, e estar na presença delas é um privilégio que poucas cidades do nosso país souberam como conservar. Ainda que a colonização e suas consequências, como a arquitetura, sejam um passado que gostaríamos de superar, senti um inevitável bem-estar de ter contato com algo tão antigo.
Passávamos pelo Chafariz de São José, onde viajantes e animais sanavam a sede há mais de 270 anos e que agora estava seco. O tempo, que havia se transformado rapidamente de céu azul para céu cinza, entregou o que ameaçava: uma chuva gelada e intensa. Eu estava sem casaco, e logo o frio fez com que meu mau humor surgisse junto à água que caía.
“Vamos entrar nesse restaurante e tomar um vinho até a chuva parar?”, ele sugeriu, na tentativa de fazer com que as nuvens cinzas não se firmassem dentro de mim.
Entramos no pequeno restaurante que, logo descobrimos, era caro demais para nosso orçamento. Mas estávamos de férias e nesse período mágico sempre nos permitimos viver um pouco a vida oferecida para outras pessoas. Sentamos e pedimos um vinho dentre os mais em conta do cardápio. Era um restaurante do tipo gourmet e fiquei feliz de não estar com fome, já que, com certeza, as minúsculas porções nunca sanariam minha fome sempre grandiosa.
Demorei alguns goles para dissipar qualquer sentimento de incômodo frente às adversidades que haviam se apresentado para nós dois. Quando voltei para o momento presente, me toquei de que aquela era uma tarde de quarta-feira em que, em vez de estar trabalhando como uma máquina, estava vivendo. Não tinha por que não desfrutar. Segurei a mão direita dele e senti uma onda de carinho me invadir. Ele havia tomado a decisão correta em sugerir que entrássemos ali. Era uma de suas habilidades: antecipar situações que me tiravam do sério e tentar resolvê-las antes que elas se tornassem reais.
Passamos uma tarde conversando, tomando vinho e observando a vida das pessoas de outra classe ao nosso redor. Aceitamos, de forma inconsciente, o convite que a cidade nos fazia o tempo inteiro de viver em uma outra realidade.
Leitura do mês, por Luiza
Batalha cultural Pernambucana
O novo e o velho nessa disputa incessante de quem vence. A tradição ou a inovação? Há de matar a tradição para criar a inovação? Ou deveríamos abrir mão da inovação para preservar a tradição?
No meu projeto de 30 clássicos antes dos 30 anos (que decidi que vão ser livros majoritariamente brasileiros, com breves exceções), li o Auto da Compadecida. Imagino que você, leitor desta newsletter, já tenha familiaridade com a história, que virou um clássico do cinema brasileiro. Mas, antes de ser adaptado para as telonas, o Auto da Compadecida é originalmente uma peça de teatro escrita por Ariano Suassuna. Como já vi o filme muitas (muitas mesmo) vezes, foi divertido perceber que muitos diálogos são fiéis à versão original, e acredito que o elenco foi escolhido com uma precisão adorável.
Como essa história você já conhece, vou contar outra para mostrar por que esse é um livro que também precisa entrar na sua lista.
Ariano Suassuna foi um dos principais idealizadores do Movimento Armorial brasileiro, e é nesse contexto que a peça foi escrita. O movimento aconteceu por volta dos anos 70, especificamente em Pernambuco, e consistia em uma resistência contra a invasão da indústria cultural de massa norte-americana, num tempo em que Hollywood vivia seu auge e os Estados Unidos estavam sugando as veias abertas da América Latina, brincando de ditadura militar em vários países simultaneamente.
Suassuna, um comunista anticolonial (titulação minha), propôs um movimento cultural de resistência engajado com a proteção e a valorização da cultura popular pernambucana, como música, dança, teatro, literatura e por aí vai. Estamos falando de literatura de cordel, xilogravura, bumba-meu-boi e viola. Era fazer o erudito a partir do popular. Suassuna rejeitava a indústria cultural e era extremamente atento aos conteúdos cheios de estereotipação e colonialidade que estavam sendo produzidos nos Estados Unidos e sendo introjetados mundialmente, no período embrionário do que nos anos 2000 começamos a chamar de globalização. Hoje a gente vê com clareza os efeitos homogeneizantes dessa suposta globalização. Lá nos anos 70, já tínhamos o Suassuna trabalhando para preservar o nosso e evitar que tradições e práticas culturais fossem dissipadas pela imposição estrangeira.
Depois de aprender sobre esse movimento, o Auto da Compadecida ganhou ainda mais sentido. Pensando de uma maneira paulo-freireana, o que Suassuna faz é pegar a cultura ordinária e transformar em alegoria. Mas uma alegoria que não se pretende universal. Muito pelo contrário, faz questão de ser local. É o povo quem produz o show e assina a direção. É da gente para a gente. Quem precisa do Manifesto Comunista quando você tem Chicó e João Grilo explicando para Deus e o Diabo que mentiram para o padre sobre o enterro de um cachorro porque precisavam do dinheiro? É o saber local, a sagacidade-malandragem de uma luta de classes que acontece aqui — que Marx, nem nenhum outro europeu, soube teorizar.
Mas é claro que Pernambuco não poderia ficar eternamente blindado da força poderosa da globalização. E é claro que um movimento contracultural que consegue se estabelecer está sujeito a encontrar seu desafiante.
Modernizar o passado
É uma evolução musical
Cadê as notas que estavam aqui?
Não preciso delas!
Basta deixar tudo soando bem aos ouvidos
O medo dá origem ao mal
O homem coletivo sente a necessidade de lutar
O orgulho, a arrogância, a glória
Enche a imaginação de domínio
São demônios os que destroem o poder bravio da humanidade.
Vinte anos depois, nessa mesma bolha efervescente de produção cultural popular pernambucana, chega o Movimento Manguebeat. A tradição fica sampleada com guitarras elétricas, mas a percussão segue ditando o ritmo. Chico Science — ou Chico Ciência, como Ariano Suassuna o chamava — desafiou o Movimento Armorial indo pelo caminho praticamente oposto, ainda que a proposta de valorizar a cultura popular pernambucana estivesse mantida. A ideia do Manguebeat era, em vez de rejeitar o que vinha de fora, se apropriar da indústria cultural e introjetar nela a cultura popular. Resultado? Da Lama ao Caos. Maracatu Atômico. Caranguejo Elétrico. Suassuna foi extremamente crítico ao movimento, porque odiava a cultura de massa, também odiava as palavras em inglês, odiava as cordas elétricas.O clássico Da Lama ao Caos é uma crítica social afiada, atento a questões de classe e raça sem romantizar nem a luta nem a pobreza. Ao mesmo tempo, faz questão de celebrar a cultura popular pernambucana: o maracatu, o coco, a rabeca, não como relíquia de museu, mas como matéria viva, pulsante, capaz de dialogar com o rock, o funk e o hip-hop sem perder uma gota de identidade. É exatamente nessa fricção que o álbum mostra a riqueza do que já era nosso.
Essa treta pernambucana poderia ser apenas uma fofoca do mundo dos artistas, mas ela produz reflexões riquíssimas sobre cultura, preservação da tradição e esforço anticolonial. Aprendendo sobre os dois lados, sinto que o que tem de mais rico nessa disputa da Amante e da Fiel na versão pernambucana é que ela não precisa de resposta. O desenrolar da discussão, as contradições e as respostas não dadas são muito mais produtivas do que qualquer conclusão. Pensando na nossa cultura popular, na nossa maestria de pegar o de fora e dar o nosso jeitinho, seja no maracatu, no sushi com cream cheese, no funk carioca (que vem do underground techno alemão) e nas infinitas hibridizações que a gente faz sem nem perceber, faz sentido que as veias estejam abertas. O sangue latino vai sempre espirrar.






